Estou aqui a falar-vos
como Profeta.
Um profeta
é alguém chamado a falar
para todos e também para si mesmo.
O profeta
é também o destinatário
do que comunica.
O profeta
tem a função de alertar,
avisar, fazer ver a situação
em que um povo
ou uma nação inteira
está envolvida.
O profeta
está alerta,
percebendo
como quem está fora
da bolha de ar
em que a nação está absorvida.
A nação está anestesiada,
acomodada,
atrofiada ou indiferente.
Falamos como Profeta.
Profeta que alerta,
que desacomoda,
que mostra
o que precisa ser mostrado.
Revela o que está oculto
aos olhos confusos;
olhos ofuscados pela névoa envolvente,
nevoa da rotina,
névoa da profissão conquistada,
névoa da ganância,
névoa do egoísmo,
névoa do imediatismo.
Estamos todos olhando
e avaliando
como quem está dentro do mundo.
Olhando horizontalmente,
sem nenhuma profundidade
e abertura para o vertical,
acima das aparências.
O que aparenta
nem sempre
é a verdade esperada
e procurada.
O Profeta
quer propor que o olhar seja lá de cima,
como quem está vendo o planeta terra,
lá das estrelas.
Estamos acostumados a ver
só com os olhos.
Os olhos são componentes
de visão orgânica, material,
e por isso só enxerga
o que é visível e material.
Olhamos só o que aparece.
Olhamos só as aparências,
a parte externa.
Os olhos só enxergam o material,
os limites, as fronteiras...
e isso acaba criando em nós
uma consciência
ou uma mentalidade mundana,
isto é, do mundo,
ou seja, só do mundo material.
Mas existem dois mundos:
o mundo visível e o mundo invisível.
Olha aí o vento, invisível,
brincando com os teus cabelos.
Nós sabemos que existem
dois mundos.
Mas cultivamos preferencialmente
o mundo que vemos.
Tudo o que é visível
já é objeto das ciências exatas.
Aqui temos certezas e convicções.
Mas existem outras ciências.
Existe todo um mundo invisível,
imaterial e
espiritual
que também podem ser objeto
de estudos e de ciências.
Há um mundo infinito
a ser explorado por nós.
Eis
onde justificamos
o convite à conversão:
“Convertei-vos”.
É um imperativo.
É uma ordem.
Caso esta ordem não seja obedecida,
haverá a extinção da espécie
que usa os olhos só para o visível.
Convertei-vos para uma nova ciência.
Buscai as ferramentas apropriadas
e desenvolvei-as.
‘O essencial é invisível aos olhos’,
disse o escritor e profeta
e Antoine de Saint Exupèry.
O Profeta, como o poeta,
procura penetrar
além das aparências.
Há um mundo invisível e infinito
a explorarmos.
O mundo do invisível
é também o mundo infinito,
sem fronteiras e eterno.
Este é o mundo
que o filho do Deus Eterno nos prometeu.
Nós não somos deste mundo que morre,
que caduca, que está cheio de limites.
Somos herdeiros do mundo invisível.
Mas não estamos preparados
para este mundo.
Os nossos olhos
só se apegam ao visível.
Mas há uma ciência nova
na qual podemos nos tornar especialistas,
usando as
ferramentas apropriadas,
diferentes daquelas
que usamos no nosso mundo econômico,
financeiro e
materializado.
Nesta nova ciência,
o principal princípio
é fechar os olhos.
A ferramenta mais usada é o silêncio.
Tem-se que parar
para escutar o inaudível.
É imenso
o conteúdo todo que cabe
dentro do imperativo “convertei-vos”.
Existem mudanças a serem efetivadas.
E quanta mudança!
Há um mundo novo,
um mundo todo cheio
de valores invisíveis,
desprezados por nós.
Sensibiliza o poeta e o profeta,
a indiferença
diante das realidades invisíveis.
Há um “dentro” das coisas
que quer comunicar-se.
Existem símbolos gritando,
exigindo que decifrem
seus códigos internos.
Existem belezas mensageiras
do Criador das Belezas.
Tudo o que é grande e maravilhoso
no Universo, são dicas,
do Cientista Criador-Invisível.
Estamos todos envolvidos
por uma literatura
que foi aos poucos sendo esvaziada,
despersonalizada e desenraizada.
Resultado do pouco esforço,
foi cultivada só na superfície.
Tudo o que fica só nas palavras,
nos livros, como letra morta,
nos mantém numa rotina,
acostumando-nos apenas a ouvir,
repetir e a ler as palavras.
A literatura toda é importante.
Há porém, uma vacina
a aplicar em nós mesmos:
estarmos alertas
para percebermos
até que ponto estamos anestesiados,
acomodados,
atrofiados ou indiferentes:
estamos nos acostumando
a viver no mundo das palavras,
no mundo virtual.
O profeta alerta avisando:
não estamos mais nem mesmo reagindo.
A verdade
que o profeta quer revelar
é que estamos escravizados.
Escravos da literatura.
É urgente perceber
que a nossa consciência está anestesiada.
O egoísmo, o individualismo
exigem a atenção ao nosso corpo
que quer conforto e saturação.
Estas atitudes opõem-se ao sacrifício,
ao esforço,
à necessidade de mudanças
e conversões.
Vejam quanta resistência opomos
quando nos pedem
que deixemos as cadeiras macias
em favor
dos que tem necessidades especiais
ou são mais idosos...
Não avaliamos o sacrifício
dos mais idosos
na demora em levantar-se,
arrumar-se, locomover-se.
Estamos todos envolvidos
na cultura do conforto e do comodismo
que desemboca na rotina
e na acomodação,
levando-nos a escolher tudo
o que nos traz conforto.
As opções pelo conforto
nos leva a fugir
ou a recusar
novas responsabilidades.
Fugir ou recusar responsabilidades
nos mantém parados, estagnados,
atrofiados e acomodados.
Esta opção
provoca inconscientemente
a nossa falência
como seres destinados à evolução.
Converter a direção do veículo
em direção ao mundo do invisível,
eis aqui o alerta do Profeta.
O Profeta
se manifesta com a finalidade
de tirar o pano de cima,
tirar a poeira
que altera a cor da profundidade.
O profeta
cutuca as resistências
e penetra na casca dura,
petrificada.
Profeta
é alguém que anuncia
outro personagem
mais importante que ele próprio.
Se o profeta é gente importante,
maior é aquele
de quem o profeta fala.
Cada ser humano
guarda dentro de si
um personagem divino.
O personagem humano
que cada um é,
manifesta-se naturalmente.
O personagem divino
que existe dentro de cada um de nós,
ainda está sufocado,
querendo libertar-se e exprimir-se
para além de qualquer fronteira.
Mas este personagem não sabe como.
Não se sente livre.
Ainda está na dimensão
da ignorância dos seus talentos.
Ignora os seus talentos
de filho e herdeiro do dono dos céus.
Não está habituado
a conviver com os valores invisíveis,
principalmente
com o valor da Fé.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 25/10/2016
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