Caia
na real. Desça daí, do mundo das palavras.
Comunicamo-nos com os outros através da palavra falada,
escrita, gestos, expressões faciais ou corporais.
Hoje, aqui, focamos a palavra como meio de nos fazer comunicar
e entender o comunicador e os meios usados para a comunicação em todos as suas
ramificações.
O
nosso mundo de hoje é a herança de toda a história já percorrida, conhecida por
nós através da palavra falada ou escrita.
Esta
herança, a palavra verbal ou escrita, que hoje temos em mãos, e a gastamos, é
de dois tipos: uma visível, transformada a partir da matéria prima bruta,
aperfeiçoada pelas descobertas, progresso e evolução, intercâmbio de povos e
nações.
A
outra, virtual e invisível é o capital do conhecimento. Este capital é ampliado
graças à palavra oral e escrita.
A
palavra sempre foi valorizada porque é dinâmica e livre.
Solta
nos ares dos campos das atividades humanas ou presa nos livros, revistas, CDs,
DVDs, a palavra é matéria prima viva, é força que provoca transformações e
produzem efeitos inimagináveis, alargando horizontes, ressuscitando mortos,
aventurando-se a imaginar, pesquisar e adentrar o infinito.
Por
outro lado, hoje, a palavra está sendo questionada e avaliada em seus feitos e efeitos.
Estaremos
vendo o lado bom da palavra e a outra, não menos boa, o mundo virtual imaginado
e criado por nós, os seres humanos.
Parece-nos
haver, cada vez mais, o distanciamento do mundo real do mundo virtual.
A
mente ou a capacidade racional e espiritual, em parceria com o potencial da
palavra, formam uma das mais perfeitas parcerias da unidade do ser humano
livre.
O
que cada um fala ou escreve funciona como semente que germina, vive, floresce,
cresce e mais cedo ou mais tarde, dá frutos.
Criou-se
no mundo moderno, um outro mundo: o mundo virtual, onde a palavra está
constantemente agindo, impondo-se, fazendo propaganda, alienando, enganando,
prometendo, justificando e viajando na maionese.
Parece
que o mundo virtual desconhece que o mapa do mundo real, este que no qual
estamos vivendo, sofreu modificações nos últimos anos.
Palavras
ou falas curtas, hoje, comunicam mais, agradam mais do que longos discursos,
textos extensos e livros grossos.
Eis
o que muitos comunicadores devem aprender e, a partir daí, colocar em prática
tal sugestão dos tempos curtos de hoje.
Muitas
palavras enfraquecem uma mensagem poderosa.
Uma
pequena história de cinco minutos será muito mais eficiente do que trinta
minutos de palestra ou homilia.
Um testemunho
de vida é muito mais aceito do que uma montanha de palavras derramadas durante
30 minutos nas cabeças de jovens e adultos.
Nos
dias de hoje todas as cabeças estão cheias, saturadas de sons, imagens,
palavras.
Mesmo
que as palavras sejam sagradas, não produzem mais os efeitos que alcançavam
antes.
Palavras
antigas perderam seus significados.
Palavras
novas foram criadas, encurtando o tempo.
Alguns cursos longos foram substituídos por muitos
cursos curtos, menos teóricos, mais práticos.
Estamos
na era da comunicação e na era do tempo escasso.
Queremos,
desejamos e esperamos comunicações rápidas e eficazes.
Ninguém
mais têm paciência para ficar ouvindo palavras que não tenham o poder de provocar
mudanças rápidas.
Palavras
hoje devem ser ditas com o objetivo de mostrar saídas, abrir portas, sugerir
criatividade, fazer parcerias, onde buscar ajuda, como melhorar o desempenho
pessoal e profissional, como solucionar conflitos pessoais, familiares e conjugais.
Deve ser algo prático, que produzam efeitos imediatos.
Mais do que palavras históricas, palavras de
conforto é que o povo está precisando hoje.
Discursos
de políticos são montados em cima dos veículos que circulam pelo asfalto e
pelas principais avenidas das cidades grandes.
Não
batem mais com a realidade vivida hoje pela maioria do povo brasileiro.
A
leitura que se faz hoje, não é de um mundo onde tudo está nos seus devidos
lugares, não.
Pelo
contrário, antes de falar e escrever, convém circular pelas ruas e bairros da
periferia. Convém visitar a casa dos desempregados.
Convém
andar a pé pelas ruas sem acostamento, sem saneamento básico.
Convém
andar pelas cidades pequenas.
Convém
visitar escolas depredadas, orfanatos, pequeno cotolengo, prisões, sala de
espera dos hospitais.
Caia
na real. Desça daí, do mundo das palavras.
Se
tens tempo para preencher os livrinhos das palavras cruzadas, vives como quem
está em período de férias.
Os
pobres de hoje, as pessoas de hoje não tem mais tempo para palavras cruzadas.
Suas vidas estão mais para o jogo de Xadrez, em constante situação de cheque mate.
Hoje,
as próprias palavras faladas pela maioria dos comunicadores demonstram que
estão fora da realidade.
A
palavra perdeu o peso, perderam gravidade.
O
escritor Leonardo Boff em algum dos seus livros escreveu: “Não adianta ler
receitas culinárias para quem está com fome”.
É
isto que estamos tentando transmitir: mais do que palavras, são ações que devem
ser planejadas, para reduzir a quantidade de problemas que existem em todos os
lados para os quais dirijamos nosso olhar e para encurtar distancias entre o
mundo real e o mundo virtual.
E a reflexão ainda tem mais:
Sábios,
eremitas e alguns poucos homens, refugiam-se em selas, eremitérios, grutas ou
cavernas e passam aí uma boa parte do tempo de suas vidas, longe do mundo das
palavras, esvaziando suas mentes de conceitos, ou de qualquer tipo de
comunicação, com a única finalidade de aquietar seu mundo interior e deixar-se
absorver pelo mundo do silêncio.
Grandes
homens, contempladores experientes, admiradores, e grandes amores não precisam
das palavras.
Silenciosos,
quietos, apenas fitam seus olhos e dizem palavras indizíveis.
A
simples presença destes raros personagens transmitem a paz e a compreensão de
um tipo de comunicação quântica e mística, potentíssima e eficaz nos seus
efeitos unitivos.
Quem
os observa, quem os vê acaba conhecendo um novo meio de comunicação, sem
palavras.
Estes
seres são raros, muito raros, pois conquistaram o último dos patamares da
existência humana: ver, compreender e ensinar tudo, sem o uso das palavras.
Neles
se encontra o que gostaríamos de achar em nós: a totalidade, a perfeição. Não
falam com palavras, mas com atos concretos.
Para
que a palavra dita e a palavra escrita tenha peso e gravidade, e que seja
eficiente, ao comunicador convém primeiro ver, constatar, apalpar, cheirar,
sentir o odor ou o perfume do objeto da sua fala e depois, afastar-se, ver de
cima, refletir, meditar, avaliar e não ter medo de falar ou escrever sobre o
que vê e viu.
Em
seguida, mas juntamente, relacionar os fatos com os princípios da justiça, da
coerência, da honestidade, da verdade e da fidelidade aos Direitos Humanos, o
bem comum da humanidade.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 18/07/2016.
eneaspb@gmail.com
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