segunda-feira, 18 de julho de 2016

Coerências e incoerências dos comunicadores. 8


 

Caia na real. Desça daí, do mundo das palavras.

 

       Comunicamo-nos com os outros através da palavra falada, escrita, gestos, expressões faciais ou corporais.

 

       Hoje, aqui, focamos a palavra como meio de nos fazer comunicar e entender o comunicador e os meios usados para a comunicação em todos as suas ramificações.

 

O nosso mundo de hoje é a herança de toda a história já percorrida, conhecida por nós através da palavra falada ou escrita.  

 

Esta herança, a palavra verbal ou escrita, que hoje temos em mãos, e a gastamos, é de dois tipos: uma visível, transformada a partir da matéria prima bruta, aperfeiçoada pelas descobertas, progresso e evolução, intercâmbio de povos e nações.

 

A outra, virtual e invisível é o capital do conhecimento. Este capital é ampliado graças à palavra oral e escrita.

 

A palavra sempre foi valorizada porque é dinâmica e livre.

 

Solta nos ares dos campos das atividades humanas ou presa nos livros, revistas, CDs, DVDs, a palavra é matéria prima viva, é força que provoca transformações e produzem efeitos inimagináveis, alargando horizontes, ressuscitando mortos, aventurando-se a imaginar, pesquisar e adentrar o infinito.

 

Por outro lado, hoje, a palavra está sendo questionada e avaliada em seus feitos e efeitos.  

 

Estaremos vendo o lado bom da palavra e a outra, não menos boa, o mundo virtual imaginado e criado por nós, os seres humanos.

 

Parece-nos haver, cada vez mais, o distanciamento do mundo real do mundo virtual.  

 

A mente ou a capacidade racional e espiritual, em parceria com o potencial da palavra, formam uma das mais perfeitas parcerias da unidade do ser humano livre.

 

O que cada um fala ou escreve funciona como semente que germina, vive, floresce, cresce e mais cedo ou mais tarde, dá frutos.

 

Criou-se no mundo moderno, um outro mundo: o mundo virtual, onde a palavra está constantemente agindo, impondo-se, fazendo propaganda, alienando, enganando, prometendo, justificando e viajando na maionese.

 

Parece que o mundo virtual desconhece que o mapa do mundo real, este que no qual estamos vivendo, sofreu modificações nos últimos anos.

 

Palavras ou falas curtas, hoje, comunicam mais, agradam mais do que longos discursos, textos extensos e livros grossos.

 

Eis o que muitos comunicadores devem aprender e, a partir daí, colocar em prática tal sugestão dos tempos curtos de hoje.

 

Muitas palavras enfraquecem uma mensagem poderosa.

 

Uma pequena história de cinco minutos será muito mais eficiente do que trinta minutos de palestra ou homilia.

 

Um testemunho de vida é muito mais aceito do que uma montanha de palavras derramadas durante 30 minutos nas cabeças de jovens e adultos.

 

Nos dias de hoje todas as cabeças estão cheias, saturadas de sons, imagens, palavras.

 

Mesmo que as palavras sejam sagradas, não produzem mais os efeitos que alcançavam antes.

 

Palavras antigas perderam seus significados.

 

Palavras novas foram criadas, encurtando o tempo.

 

 Alguns cursos longos foram substituídos por muitos cursos curtos, menos teóricos, mais práticos.

 

Estamos na era da comunicação e na era do tempo escasso.

 

Queremos, desejamos e esperamos comunicações rápidas e eficazes.

 

Ninguém mais têm paciência para ficar ouvindo palavras que não tenham o poder de provocar mudanças rápidas.

 

Palavras hoje devem ser ditas com o objetivo de mostrar saídas, abrir portas, sugerir criatividade, fazer parcerias, onde buscar ajuda, como melhorar o desempenho pessoal e profissional, como solucionar conflitos pessoais, familiares e conjugais. Deve ser algo prático, que produzam efeitos imediatos.   

 

 Mais do que palavras históricas, palavras de conforto é que o povo está precisando hoje.

 

Discursos de políticos são montados em cima dos veículos que circulam pelo asfalto e pelas principais avenidas das cidades grandes.

 

Não batem mais com a realidade vivida hoje pela maioria do povo brasileiro.

 

A leitura que se faz hoje, não é de um mundo onde tudo está nos seus devidos lugares, não.

 

Pelo contrário, antes de falar e escrever, convém circular pelas ruas e bairros da periferia. Convém visitar a casa dos desempregados.

 

Convém andar a pé pelas ruas sem acostamento, sem saneamento básico.

 

Convém andar pelas cidades pequenas.

 

Convém visitar escolas depredadas, orfanatos, pequeno cotolengo, prisões, sala de espera dos hospitais.

 

Caia na real. Desça daí, do mundo das palavras.

 

Se tens tempo para preencher os livrinhos das palavras cruzadas, vives como quem está em período de férias.

 

Os pobres de hoje, as pessoas de hoje não tem mais tempo para palavras cruzadas. Suas vidas estão mais para o jogo de Xadrez, em constante situação de cheque mate.

 

Hoje, as próprias palavras faladas pela maioria dos comunicadores demonstram que estão fora da realidade.

 

A palavra perdeu o peso, perderam gravidade.

 

O escritor Leonardo Boff em algum dos seus livros escreveu: “Não adianta ler receitas culinárias para quem está com fome”.

 

 

É isto que estamos tentando transmitir: mais do que palavras, são ações que devem ser planejadas, para reduzir a quantidade de problemas que existem em todos os lados para os quais dirijamos nosso olhar e para encurtar distancias entre o mundo real e o mundo virtual.

 

       E a reflexão ainda tem mais:

 

Sábios, eremitas e alguns poucos homens, refugiam-se em selas, eremitérios, grutas ou cavernas e passam aí uma boa parte do tempo de suas vidas, longe do mundo das palavras, esvaziando suas mentes de conceitos, ou de qualquer tipo de comunicação, com a única finalidade de aquietar seu mundo interior e deixar-se absorver pelo mundo do silêncio.

 

Grandes homens, contempladores experientes, admiradores, e grandes amores não precisam das palavras.

 

Silenciosos, quietos, apenas fitam seus olhos e dizem palavras indizíveis.

 

A simples presença destes raros personagens transmitem a paz e a compreensão de um tipo de comunicação quântica e mística, potentíssima e eficaz nos seus efeitos unitivos.

 

Quem os observa, quem os vê acaba conhecendo um novo meio de comunicação, sem palavras.

 

Estes seres são raros, muito raros, pois conquistaram o último dos patamares da existência humana: ver, compreender e ensinar tudo, sem o uso das palavras.

 

Neles se encontra o que gostaríamos de achar em nós: a totalidade, a perfeição. Não falam com palavras, mas com atos concretos.

 

Para que a palavra dita e a palavra escrita tenha peso e gravidade, e que seja eficiente, ao comunicador convém primeiro ver, constatar, apalpar, cheirar, sentir o odor ou o perfume do objeto da sua fala e depois, afastar-se, ver de cima, refletir, meditar, avaliar e não ter medo de falar ou escrever sobre o que vê e viu.

 

Em seguida, mas juntamente, relacionar os fatos com os princípios da justiça, da coerência, da honestidade, da verdade e da fidelidade aos Direitos Humanos, o bem comum da humanidade.  

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 18/07/2016.

eneaspb@gmail.com

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